terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

- José Saramago em O Homem Duplicado:

A Tertuliano Máximo Afonso talvez não lhe importasse chegar a ser árvore, mas nunca o há-de conseguir, a sua vida, como a de todos os humanos vividos e por viver, não experimentará jamais a suprema experiência do vegetal. Suprema, imaginamos nós, que até agora a ninguém foi dado ler a biografia ou as memórias de um carvalho, escritas pelo próprio. Preocupe-se pois Tertuliano Máximo Afonso com as coisas do mundo a que pertence, este de homens e de mulheres que vozeiam e alardeiam por todos os meios naturais e artificiais, e deixe os arbóreos em sossego, que a eles já lhes sobram as pragas fitopatológicas, a serra elétrica e os fogos florestais.



segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

- V. S. Naipaul em Uma Casa para o Sr. Biswas:

- Nunca lhe ensinaram higiene na escola? Arroz, batata. Só amido, essa porcaria. - Bateu na própria barriga. - Você quer que eu inche até explodir? - Ao ver Shama, sua depressão virou raiva; porém ele falava em tom de gozação.
- Eu sempre respondo - disse Shama - que você só pode reclamar quando você mesmo é que comprar a sua comida.
Ele foi até a janela, lavou as mãos, gargarejou e cuspiu.
Alguém gritou lá de baixo:
- Ei! Você aí em cima! Olhe o que você fez!
- Eu sabia, eu sabia - disse Shama, correndo até a janela. - Sabia que isso ia acabar acontecendo mais dia, menos dia. Você cuspiu em alguém.
Ele olhou pela janela, interessado.
- Quem foi? A raposa velha ou um dos deuses?
- Você cuspiu no Owad.
Ouviram o deus se queixando.
O Sr. Biswas encheu a boca de água mais uma vez e gargarejou. Então, com as bochechas infladas, esticou-se para fora o máximo que pôde.
- Não pense que eu não estou vendo - gritou o deus. - Estou vendo o que o senhor está fazendo. Mas vou ficar parado aqui e, se cuspir em mim, vou contar para a mamãe, sr. Biswas.
- Pois conte, seu filho da puta - murmurou o sr. Biswas, e cuspiu.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

domingo, 6 de junho de 2010

- John Steinbeck em Vidas Amargas (A Leste do Éden):

Levou duas semanas para escrever sua última carta e corrigir a ortografia. Confessava crimes que não poderia ter cometido e admitia culpas que estavam muito além de sua capacidade. Depois, vestindo uma mortalha que fizera secretamente, saiu de casa numa noite de luar e afogou-se num pequeno lago, tão raso que teve de ficar de joelhos na lama e manter a cabeça debaixo da água. Quando a inconsciência finalmente a dominou, estava pensando com alguma irritação que a sua linda mortalha branca estaria suja de lama quando a tirassem da água pela manhã. E foi o que aconteceu.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

- Nathanael Philbrick em No Coração do Mar - A História real que inspirou o Moby Dick de Melville:

Era quase como se estivessem sendo envenenados pelos efeitos combinados da sede e da fome. Dentro de suas bocas se acumulava uma saliva pegajosa e amarga, que era "indescritivelmente insuportável". Os cabelos caíam em tufos. A pele estava tão queimada e coberta de feridas que um mero salpico de água salgada provocava a sensação de ácido a queimar a carne. E o mais estranho de tudo era que, à medida que os olhos afundavam nos crânios e as maçãs do rosto tornavam-se salientes, todos começaram a se parecer uns com os outros - suas identidades estavam sendo apagadas pela desidratação e pela inanição.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

- Jack Kerouac em On The Road - Pé na Estrada:

"Amo o amor", sussurrou, fechando os olhos. Eu lhe prometi um amor maravilhoso. Regozijava-me com ela. Com nossas histórias contadas, ingressamos no silêncio e em suaves intenções auspiciosas. Era simples assim. Você pode possuir todas as suas Peaches e Bettys e Marylous e Ritas e Camilles e Inezes deste mundo; esta era minha garota e meu tipo predileto de garota, e eu disse isso a ela. Ela confessou que havia me visto olhar para ela na rodoviária. "Pensei que você era um universitário bem comportado".